Friday, October 19, 2007

2001

Como quem espera ansioso o encontro com a ex-namorada, aquela que foi o verdadeiro e único amor, na esperança por um sexo-recordação. Assim passei o dia de ontem na espera para assistir "2001: Uma Odisséia no Espaço" em um cinema, na tela grande, aqui em downtown Houston. O Centro de Filmes Angelika de tempo em tempo projeta por uma noite só grandes filmes clássicos.

Já assisti 2001 em video e dvd, sem exagero, umas dez vezes. Dez vezes inteiro, pois ás vezes queria ver especificamente uma cena só. A razão é simples: este é o meu filme predileto de todos, de todos os tempos e gêneros. O fato de eu ter um filme que considero superior a todos os outros é uma surpresa pra mim mesmo. Gosto muito de cinema, assisto muitos filmes, poderia não ter um filme predileto, ou ter no máximo uma discutível lista de cinco melhores. Mas não. Tenho um filme favorito.

Acho que o gosto para filmes diz muito sobre quem as pessoas são.Não me ache pretensioso, mas consigo traçar mais ou menos o perfil de alguém pelo que a pessoa aprecia no cinema. Baseado nisto sempre imaginei se eu seria um bicho muito estranho e esquisito mesmo por gostar de um filme que muitos não entendem. Bem, como defesa da minha falta de sensatez prefiro pensar que o intelecto daqueles não está preparado para algo sofisticado como 2001.

Enquanto comia um sushi antes da projeção, imaginava que tipo de figura estaria lá assistindo o filme. Aqui nos EUA, sei lá, pode-se esperar ver aqueles aficcionados vestidos como protagonistas. Imagine chegar na sala e ter uns macacos e uns astronautas sentado na sua frente... Mas ainda bem, estavam todos vestidos de gente. No entanto o que foi surpresa era que na sala lotada tinha bastante gente nova. Achei que seria na maioria o povo da velha guarda, que teve o privilégio de assistir o lançamento em 1968. Antes da exibição, todos conversavam animadamente, como se fosse uma grande família de gente estranha e esquisita. O diretor do centro entra na sala e pergunta quem iria ver o filme pela primeira vez e a meninada levanta a mão. Senti uma certa inveja. Não há nada como ler um livro, ou assistir um filme de qualidade com uma planilha em branco.Vai ver todas as outras várias vezes que se repete a experiência é uma busca por aquela primeira sensação. Como dizem dos viciados em heroína sempre em busca da primeira viagem.

Sentei na terceira fileria, bem no meio, e me deixei levar pelo infinito do universo.

Já teria sido uma boa noite, mas ainda tinha algo mais. O ator principal do filme estava lá (Keir Dullea quem fez o papel do astronauta Dave Bowman), e depois da exibição se ofereceu para uma rodada de perguntas e respostas com o público. Sim, isto mesmo, passei das teóricas seis pessoas de distância, para uma só. Ali na minha frente alguém que trabalhou meses com o Stanley Kubrick. Este momento ficará registrado na minha memória como um dos (aqui sim) “top five momentos de tietagem absoluta”. Junto do dia em que assisti o Woody Allen tocando jazz num bar em Nova York e da vez que aos sete anos de idade abraçei a Xuxa.

Ele contou algumas coisas sobre a filmagem, disse que o Kubrick era gente fina e um gênio e foi isso. Pronto, essa foi minha noite. Cheguei em casa e encontrei um quarto branco com decoração do século retrasado. Já cheio de rugas, comi algo e derrubei um copo para logo depois morrer e virar um bebê espacial.

Ilustração: Janara

4 comments:

"Cinéfilo" said...

Bem, primeiro sobre o texto: Está perfeito, constrói o clima e traz a informação correta de forma indolor, perfeito, repito. Agora o filme: Tive o privilégio de ser um dos que assistiram o filme em primeira mão, EU ESTAVA LÁ EM 1968. Juntamente com o filme "O planeta dos macacos", outro marco do cinema de ficção científica lançado no mesmo ano, o "2001" marcou a geração de cinéfilos da qual faço parte. Não sei dizer se é o maior filme do gênero mas, com certeza, está entre os melhores. Já o assisti umas três ou quatro vezes e julgo que quem gosta dele tem, no mínimo, um gosto refinado e tendência a refletir sobre o futuro da espécie, entre outras coisas. Meu filme predileto é "Lawrence da Arábia" o qual já assisti muitas vezes e não me canso de reassistir. Também tenho um segundo favorito "O resgate do soldado Ryan" que considero o melhor filme de guerra feito em todos os tempos. Só não é um clássico ainda por que lhe falta idade, é muito novo.

Adri said...

Assisti o filme acho que uma vez, na "Secao da Tarde", mais de 12 anos atraz... e nem me lembro.. Com uma critica boa vinda de voce, darei outra chance e o assistirei novamente!!

Brandina said...

Muito bom tudo o que li. Parabéns. Bem que nas tuas horas vagas, vc poderia estudar cinema, já que está por aí, quem sabe? É uma boa idéia....Parabéns.Brandina.

Daniel Caron said...

Lopes, como você bem sabe também sou fã de 2001 e fiquei honrado em saber que um amigo meu conheceu o ator principal do filme.

Cara, que loucura essa história. De certa forma me sinto mais próximo de Kubrick também.

Valeu Augusto!